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quarta-feira, 17 de outubro de 2018

Hamlet no Teatro do Centro Cultural Minas Tênis Clube

Premiado espetáculo faz curta temporada na capital mineira
Foto: Nityam Prem
Acostumada a processos que resultam na criação de uma dramaturgia própria (vide Inveja dos Anjos e A Marca da Água – que levaram o Prêmio Shell de Melhor Autor em 2008 e 2012, além de O Dia em que Sam Morreu – Prêmio Cesgranrio de Melhor Texto em 2014), a Armazém Companhia de Teatro se volta agora para um outro tipo de processo, onde o que mais interessa é o seu posicionamento sobre a narrativa. Partindo da obra fundamental de Shakespeare, a Companhia retorna a capital mineira para apresentar, no Teatro do Centro Cultural Minas Tênis Clube, de 9 a 11 de novembro, o espetáculo HAMLET. A ideia geral da Armazém é encontrar um Hamlet do nosso tempo. Um Hamlet cheio de som e fúria. Não numa atualidade forçada, mas ressaltando aspectos da obra que dialogam com esse coquetel de conflitos contemporâneos que vemos todos os dias jorrando nas grandes cidades do mundo.

Patrocinada pela Petrobras desde 2000, a Armazém Companhia de Teatro completou 30 anos de existência no final de 2017, travando um complexo diálogo criativo com um dos melhores materiais dramatúrgicos da história. Hamlet é o príncipe da Dinamarca. Apenas um mês separa a morte repentina e inexplicável de seu pai  e o novo casamento de sua mãe. O príncipe tem visões de seu pai, que afirma que foi envenenado pelo irmão, e exige que Hamlet se vingue e mate o novo Rei (seu tio e padrasto). Hamlet se finge de louco para esconder seus planos, e vai perdendo o controle sobre sua própria realidade no meio deste processo. Ou seja, a invenção teatral do século XVI de um príncipe que fingia loucura e o espírito inflamado do nosso século entraram inevitavelmente em colisão. Já não há mais fingimento. A loucura de Hamlet tornou-se a loucura do mundo.

A história de Hamlet é a história da destruição de uma ordem estabelecida. Shakespeare representa a corte real dinamarquesa mergulhada em corrupção. Assassinato, traição, manipulação e sexualidade são as armas usadas na guerra para preservar o poder. No centro dessa história está Hamlet, um homem desesperadamente preocupado com a natureza da verdade, um homem notável que quer ser mais verdadeiro do que, provavelmente, é possível ser. E que exige do resto do mundo que sejam todos verdadeiros com ele. Mas é possível conhecer a si mesmo integralmente? É possível conhecer integralmente as pessoas a seu redor? Hamlet se fragmenta, nossa época o faz assim, um sujeito destrutivo, atormentado e letal.

“É importante tratar Shakespeare como se ele fosse um genial dramaturgo recém-descoberto com algumas coisas urgentes a dizer sobre a guerra, sobre a loucura do mundo e sobre nossos líderes políticos modernos”, comenta Paulo de Moraes que escreveu o roteiro das cenas antes de Maurício Arruda Mendonça fazer a tradução. “Maurício conseguiu uma poesia sem pompa, que comunica sem perder a beleza. E é grande mérito dos atores que essa poesia chegue rasgando, ela é língua, ela é corpo, ela é carne”, conclui o diretor.

Em cena, sete atores dão vida aos personagens de Shakespeare: Patrícia Selonk (Hamlet), Ricardo Martins (Claudius), Marcos Martins (Polonius), Lisa Eiras (Ofélia), Jopa Moraes (Laertes), Isabel Pacheco (Gertrudes) e Luiz Felipe Leprevost (Horácio). Em participação em vídeo, Adriano Garib  é o Espectro.

Desde a estreia, em junho de 2017, no Rio de Janeiro, onde realizou quatro temporadas, Hamlet passou por São Paulo, Angra dos Reis, Aracaju, Curitiba, Fortaleza, Londrina, Natal, Porto Alegre, Recife, Salvador e Vitória, além de ter realizado uma temporada de muito sucesso no CCBB Belo Horizonte. Aproximadamente 30 mil pessoas assistiram ao espetáculo nas mais de 120 apresentações realizadas até o momento.

Prêmios de Hamlet

Hamlet recebeu o Prêmio Cesgranrio de Teatro 2017, na categoria de Melhor Iluminação, além de ter sido indicado nas categorias de Melhor Espetáculo, Direção, Cenografia, Iluminação, Figurino e Categoria Especial (pela Trilha Sonora Original). Também recebeu o Prêmio Shell 2017 de Melhor Cenário, além de indicações para Melhor Direção e Melhor Iluminação. No Prêmio APTR, o espetáculo recebeu os prêmios de Melhor Atriz Coadjuvante (Lisa Eiras) e Melhor Cenário, além de indicações nas categorias de Melhor Espetáculo, Direção, Atriz, Iluminação e Figurino. Hamlet também recebeu o Prêmio Cenym 2017 de Melhor Atriz (Patrícia Selonk) e Melhor Companhia de Teatro.

O que disse a crítica

“A direção de Paulo de Moraes é de um artesanato criterioso. O primeiro ato reúne as características formais ampliadas numa sucessão de recursos surpreendentes. No segundo, o desenvolvimento da trama ganha o ritmo de um voo rasante. A cenografia de Carla Berri e Paulo de Moraes confere à caixa cênica a imponência de estrutura envidraçada, que se movimenta como anteparo de vilanias e abrigo de duelos. A iluminação de Maneco Quinderé define a coloração dramática de assassinatos e a luminosidade da maquinaria do palco com a autoridade de sua assinatura. O elenco está igualmente alinhado com a proposta vibrante do encenador.” (Macksen Luiz, Jornal O Globo)

“Em mais um grande acerto, a Armazém Companhia de Teatro equilibra com maestria o clássico e o contemporâneo nesta releitura da tragédia de Shakespeare. Patrícia Selonk dá uma aula de interpretação na pele do (quase) enlouquecido protagonista, muito bem acompanhada Lisa Eiras (Ofélia) e um amadurecido Jopa Moraes – que se desdobra em três papéis. Discretas referencias à realidade política do país também são muito bem exploradas.” (Renata Magalhães, Revista Veja Rio)

“Patrícia Selonk assina um Hamlet histórico, um desempenho monumental, construção de carne, afeto, razão desmedida, impossibilidade, flerte com o desejo humano desvairado de absoluto. A condição feminina faz parte da busca da contradição. Ela imprime ao personagem mais uma nota de oscilação e de incerteza sensível, fortalece a identificação do protagonista com a imagem patética do cidadão impotente do nosso tempo, a partir de uma intensa vibração afetiva subterrânea.” (Tânia Brandão, blog Folias Teatrais)

“A versão de Hamlet, da Armazém Companhia de Teatro, é um marco.” (Claudia Chaves, Jornal do Brasil)

“A montagem de Paulo de Moraes enfatiza não apenas a semelhança entre a Dinamarca da ficção e o Brasil atual, mas também o poder letal daqueles que conseguem superar a melancolia e o desespero e resolvem agir. E tal superação transcende o pessoal e se afigura como um gesto político. (…) além disso o encenador conseguiu extrair uma das mais brilhantes performances de Patrícia Selonk. Na pele de Hamlet, a atriz potencializa ao máximo toda a fragilidade e potência do personagem, tornando verossímeis tanto a melancolia e inércia do personagem no início quanto a fúria devastadora que o domina a partir do momento em que decide efetivamente agir. E no que se refere ao célebre monólogo ‘Ser ou não ser’, proferido em voz baixa e impregnado de uma dor que chega a ser exasperante, bastaria este breve e sublime momento para ratificar o que todos já sabem: Patrícia Selonk é uma das melhores intérpretes do país.” (Lionel Fisher, crítico e jurado dos prêmios APTR e Cesgranrio)

“A escolha de Patrícia Selonk para interpretar o príncipe vingador foi ousada e certeira. Ela se entrega por completo ao personagem e sua performance é marcada por muitas nuances, conseguindo transmitir as angústias e contradições de um indivíduo à sombra da memória (e do ódio) do pai. A Armazém consegue mostrar que Shakespeare é um autor essencialmente popular. Ele fala sobre o humano sem idealizações e não está confinado em uma torre de marfim que alguns críticos e estudiosos quiserem aprisioná-lo por séculos. Hamlet permanece atual porque a sombra da crueldade, da loucura, o questionamento do ser ou não ser, diz respeito à nossa natureza (ainda que muitas vezes queiramos negá-la).” (Márcio Bastos, Jornal do Commércio - Recife)

Sobre a Armazém Companhia de Teatro

Em 2018, a Armazém Companhia de Teatro segue apresentando sua versão de Hamlet em turnê nacional. Com mais de 40 prêmios nacionais no currículo, a companhia também foi premiada duas vezes no Festival Fringe de Edimburgo (na Escócia), com o prestigiado Fringe First Award (2013 e 2014) e no Festival Off de Avignon (na França), com o Coup de Couer de la Presse d’Avignon (2014).

A Armazém Companhia de Teatro foi formada em 1987, em Londrina, em meio à efervescência cultural vivida pela cidade paranaense na década de 80 - de onde saíram nomes importantes no teatro, na música e na poesia. Liderados pelo diretor Paulo de Moraes, o senso de ousadia daqueles jovens buscando seu lugar no palco impregnaria para sempre os passos do grupo: a necessidade de selar um jogo com o seu espectador, a imersão num mundo paralelo, recriado sobretudo pela ação do corpo, da palavra, do tempo e do espaço.

Com sede no Rio de Janeiro desde 1998, a companhia acaba de completar 30 anos de formação. Graças ao patrocínio continuado da Petrobras, desde 2000, a companhia tem conseguido levar seu trabalho aos públicos mais variados, tanto do Brasil quanto do exterior. Sempre baseando seus espetáculos em pesquisas temáticas (com a criação de uma dramaturgia própria com ênfase nas relações do tempo narrativo) e formais (que se refletem na utilização do espaço, na construção da cenografia, ou nas técnicas utilizadas pelos atores para conviver com o risco de encenar em cima de um telhado, atravessando uma fina trave de madeira ou imersos na água), a questão determinante para a companhia segue sendo a arte do ator. Busca-se para o ator uma dinâmica de corpo, voz e pensamento que dê conta das múltiplas questões que seus espetáculos propõem. E a encenação caminha no mesmo sentido, já que é o corpo total do ator que a determina.

Apesar da construção de espetáculos tão díspares e complementares como A Ratoeira é o Gato (1993), Alice Através do Espelho (1999), Toda Nudez Será Castigada (2005) e O Dia em que Sam Morreu (2014), a Armazém Companhia de Teatro segue sua trajetória sempre investindo numa linguagem fragmentada, que ordene o movimento do mundo a partir de uma lógica interna. Essa lógica interna é a voz da Armazém, talvez a grande protagonista do mundo representacional da companhia.

Ficha técnica

HAMLET
Da obra de William Shakespeare
Montagem da Armazém Companhia de Teatro
Direção: Paulo de Moraes
Tradução: Maurício Arruda Mendonça
Elenco: Patrícia Selonk (Hamlet), Ricardo Martins (Claudius), Marcos Martins (Polonius), Lisa Eiras (Ofélia), Jopa Moraes (Laertes), Isabel Pacheco (Gertrudes) e Luiz Felipe Leprevost (Horácio)
Participação em Vídeo: Adriano Garib (Espectro)
Cenografia: Carla Berri e Paulo de Moraes
Iluminação: Maneco Quinderé
Figurinos: João Marcelino e Carol Lobato
Música: Ricco Viana
Preparação Corporal: Patrícia Selonk
Coreografias: Toni Rodrigues
Preparador de Esgrima: Rodrigo Fontes
Assessoria de Imprensa: Personal Press
Fotografias e Vídeos: João Gabriel Monteiro
Programação Visual: João Gabriel Monteiro e Jopa Moraes
Técnico de Palco: Regivaldo Moraes
Assistente de Produção: William Souza
Produção Executiva: Flávia Menezes
Produção: Armazém Companhia de Teatro
Patrocínio: Petrobras

De 9 a 11 de novembro
Teatro do Centro Cultural Minas Tênis Clube - Rua da Bahia, 2244, Lourdes, Belo Horizonte - MG
Sexta-feira e sábado, às 20h; Domingo, às 19h
Da obra de William Shakespeare
Montagem da Armazém Companhia de Teatro
Direção: Paulo de Moraes
Tradução: Maurício Arruda Mendonça
Elenco: Patrícia Selonk, Ricardo Martins, Marcos Martins, Lisa Eiras, Jopa Moraes, Isabel Pacheco e Luiz Felipe Leprevost

Ingressos: R$ 50 (inteira) e R$ 25 (meia-entrada)
– desconto de 50% no valor inteiro na compra de até 2 ingressos para a força de trabalho e clientes do Cartão Petrobras

Duração: 140 minutos (incluindo 10 minutos de intervalo)
Classificação: 14 anos
Drama 

quinta-feira, 4 de abril de 2013

Thiago Lacerda em "Hamlet"

Foto:Divulgação

Sob a concepção e direção de Ron Daniels, que volta ao Brasil depois de 12 anos, tradução de Marcos Daud e Ron Daniels, espetáculo coloca em cena 15 atores para contar a tragédia desse que é um dos mais enigmáticos personagens do teatro. De 19 a 21 de abril, no grande teatro do Sesc Palladium

“Hamlet é um thriller inteligente e cheio de humor, onde correm lágrimas e sangue e que fala com urgência de nós mesmos e do nosso tempo.”

Ron Daniels

O fantasma do velho rei da Dinamarca à procura de seu filho e clamando por vingança está de volta. A tragédia de Hamlet, considerado um dos mais perfeitos persona¬gens criados por William Shakespeare, é revisitada por um elenco de 15 atores que tem Thiago Lacerda como o príncipe dinamarquês. Em cena estão Antonio Petrin, Selma Egrei, Sylvio Zilber, Eduardo Semerjian, Anna Guilhermina, André Hendges, Chico Carvalho, Everson Romito, Fernando Azambuja, Marcelo Valente Lapuente, Marcos Suchara, Rafael Losso, Ricardo Nash e Rogério Romera. Montagem faz curta temporada no Grande teatro do Sesc Palladium, de 19 a 21 de abril, sexta a domingo.

Apresentado pelo programa cultural Vivo EnCena, programa cultural da Vivo para as artes cênicas, a parceria permite uma série de ações como circulação do espetáculo, após cumprir temporada na cidade de São Paulo e Rio de Janeiro, workshops e debates que promovem maior acessibilidade, reflexão e intercâmbios para todos. O espetáculo é viabilizado por meio da Lei Federal de Incentivo à Cultura, do Ministério da Cultura.

Em Belo Horizonte, “Hamlet” tem correalização da Fecomércio – Sesc/ Senac e Sesc MG. A produção local é da Rubim Projetos e Produções.

Produção

Para enfrentar o desafio de encarnar o mítico personagem que proferia emblemática frase “Ser ou não ser, eis a questão”, o ator Thiago Lacerda contou com a batuta do diretor anglo-brasileiro Ron Daniels, hoje, um dos Diretores Associados da Royal Shakespeare Company (Nova York). Desde julho de 2012, Daniels se mudou para São Paulo para dedicar-se à montagem. Hamlet é o seu retorno aos palcos brasileiros — sua última encenação no Brasil foi Rei Lear, em 2000, protagonizada pelo ator Raul Cortez. O diretor também foi responsável pela fundação do Teatro Oficina, ao lado de José Celso Martinez Corrêa e Renato Borghi.

“Hamlet paira constantemente entre a vida e a morte, a esperança e a desilusão, o que é verdadeiramente trágico e o que é gozado também. É uma peça violenta, onde corre o sangue, o cuspe e as lágrimas, e que fala da maneira mais íntima e urgente de nós mesmos e do nosso tempo. Uma trajetória maravilhosa que a cada nova montagem define todo o espírito de uma geração”, declara Daniels.

“Estava há tempos pensando em fazer meu primeiro Shakespeare por identificar, nos textos do autor, a maior fonte dramática para exercitar meu ofício”, diz Thiago Lacerda que também deu luz à extravagância de Calígula, texto clássico do escritor argelino/francês Albert Camus (1913-1960) dirigido por Gabriel Villela em 2008/2010. “Mas não pensava em “Hamlet”. A coisa mudou quando recebeu o convite de Ruy Cortez – diretor que neste projeto assina a idealização e curadoria artística. “Descobri em Ron um mestre. Estou realizando um sonho, meu trabalho é me comunicar com o público, e não temo essa responsabilidade. Shakespeare dá trabalho, mas o aprendizado é grande”, acrescenta Thiago.

TODOS CONHECEM O SEU GRANDE MONÓLOGO. MAS QUEM É ESTE PERSONAGEM, E DO QUE TRATA A PEÇA?

Na cidade de Elsinore, capital do longínquo reino da Dinamarca, o velho rei acaba de morrer. Seu sucessor não é o seu filho, um jovem universitário, mas o seu poderoso irmão, eleito pelo congresso. A rainha viúva se casa logo com o novo rei e a transferência do poder ocorre com toda tranquilidade. Só que à noite o fantasma do velho rei ronda as muralhas do castelo à procura de seu filho. A verdade, diz ele, é que foi assassinado pelo irmão, numa réplica do primeiro crime, a morte de Abel pelas mãos de Caim. O pai fantasma exige e o filho promete vingança imediata. Olho por olho…

Mas como acreditar num fantasma? E numa época civilizada e cristã, como não perdoar a aqueles que nos ofendem. Confuso, sem prova alguma do que alega o fantasma, se sentido culpado por ser incapaz de cumprir sua promessa de vingança e obcecado pela traição voluptuosa de sua mãe, Hamlet entra em crise. Profundamente enojado de si mesmo e de tudo, ele vai à procura da morte. Ser ou não ser. É essa mesmo a questão…

O personagem, um lindo rapaz, homem perfeito e cheio de esperança, se esfacela, seu coração arrebentado. E, à medida que vai se estraçalhando, vamos nós mesmos perdendo a nossa inocência, aprendendo a corrupção do nosso mundo e da nossa humanidade. A nova geração sofre pelas falhas da antiga e os filhos são herdeiros dos crimes cometidos pelos seus pais. E por trás dos sorrisos dos poderosos, vai se revelando a ambição dos canalhas. Pelo menos assim é, e não só na Dinamarca.

A CONCEPÇÂO, POR RON DANIELS

“Shakespeare não escrevia suas peças só para as elites e a linguagem do seu teatro não era para ser entendida apenas pelos intelectuais. Por mais rebuscados que seus temas fossem, pertenciam à cultura popular. Seu teatro era moderno, vigoroso, com narrativas empolgantes e dinâmicas. Nada de precioso. As palavras que Shakespeare usava vinham da língua do povo, mesmo que o seu gênio fizesse com que a maneira de organizar estas palavras resultasse no que o guru do teatro inglês Peter Brook chama de “harmonia espiritual” – a música das esferas. E se hoje em dia precisamos de um dicionário especial para entender o significado dos termos sexuais de suas peças (A Dictionary of Shakespeare’s Sexual Puns and their Significance, publicado pela Macmillan Press em 1984), na época o espectador entendia todas as piadas e todas as vulgaridades do texto por mais requintadas que fossem.

Shakespeare era um homem do teatro e seu objetivo era comunicar suas ideias e seus enredos da forma mais direta possível. É certo que ele tinha um vocabulário enorme, mas não procurava propositadamente usar palavras que o seu público desconhecia. Não era poeta ou filósofo – ou se o era, era só por casualidade. Não escrevia poesia nem dissertações filosóficas e abstratas, mas teatro, ação e personagens – embora como todos os escritores da época, obedecia as regras do chamado verso “pentâmetro iâmbico”: cada linha do texto em verso constituído de cinco pares de sílabas, uma fraca seguida de outra forte, sendo que as palavras importantes sempre caem na sílaba forte. Mas essas são exigências do verso em inglês, que não têm nada a ver com o português escrito – muito menos o falado. Além disso, como diz o diretor John Barton da Royal Shakespeare Company, o “pentâmetro iâmbico” é a forma natural e gostosa de falar inglês. Se for assim, porque traduzir ou encenar o texto de forma rebuscada, embolada ou contorcida? Porque não traduzir o seu teatro através de uma forma natural e gostosa de falar o português? Uma forma direta, muscular, e lúcida que permita ao espectador entender tudo, palavra por palavra, sem dicionário, sem tempo de reflexão, no momento imediato da ação.

Então, vai faltar poesia? Pelo contrário. O que será revelado na boca do ator, sem mistificação, é o conteúdo mais profundo da fala que nos conduz ao encontro direto com o personagem em toda a sua humanidade e com todas as suas contradições. E através do personagem às verdades universais que falam de todos nós, das nossas vidas e do nosso tempo. Um Shakespeare verdadeiramente moderno, brasileiro e autêntico – como se ele tivesse nascido não em Stratford-on-Avon, na Inglaterra, mas em São Paulo ou em qualquer canto do Brasil. E o nosso espectador sairá do espetáculo totalmente empolgado, dizendo “Ué! Como é que é isso? Entendi tudo! Que gênio de autor. Que maravilha de peça! Essa é uma das principais razões que justificam essa montagem.”

Hamlet

Data

19 a 21 de abril – sexta e sábado às 21h e domingo às 19h

Local

Sesc Palladium – Rua Rio de Janeiro, 1.046 - Centro – Belo Horizonte (estacionamento no local – entrada pela Av. Augusto de Lima, 420)

Ingressos

Plateia I e II: Inteira: R$ 60,00 e Meia-entrada: R$ 30,00 Plateia III: Inteira: R$ 40,00 e Meia-entrada: R$ 20,00 / Venda online: www.ingresso.com / 4003.2330

Direção

Ron Daniels

Elenco

Elenco: (por ordem de entrada em cena): Francisco, sentinela e Fortinbrás, príncipe da Noruega - André Hendges/ Bernardo, sentinela: Marcelo Valente Lapuente / Padre O Terceiro Ator - Horácio, amigo de Hamlet: Rafael Losso/ Marcelo: Rogério Romera/ Capitão do exército norueguês e Fantasma do velho rei da Dinamarca: Antonio Petrin / O Primeiro Ator Hamlet, seu filho,príncipe da Dinamarca: Thiago Lacerda / Ofélia, filha de Polônio: Anna Guilhermina/ Laertes, filho de Polônia: Marcos Suchara/ Cláudio, o novorei da Dinamarca: Eduardo Semerjian/ Gertrudes, a rainha da Dinamarca: Selma Egrei / Polônio, conselheiro do rei: Sylvio Zilber / O Primeiro Coveiro, Reinaldo, servidor de Polônio: Fernando Azambuja / O Segundo Coveiro, Rosencrantz, amigo de Hamlet: Chico Carvalho / Guildenstern, amigo de Hamlet: Ricardo Nash / O Segundo Ator, Osric : Everson Romito

Outras Informações

(31) 3279.1500