![]() |
| Foto:Milena Gomes |
Após um intenso ciclo de imersão na lutheria artesanal e nos ritmos afro-brasileiros, o projeto “A Voz do Tambor” entra na sua reta final celebrando a ancestralidade, o fortalecimento comunitário e o protagonismo feminino. Idealizada e coordenada pela musicista, historiadora e educadora Guê Oliveira, a jornada formativa gratuita está circulando pelas periferias de Belo Horizonte e encerra suas atividades entre os dias 7 e 15 de novembro com programações especiais nos três territórios atendidos: Jardim Felicidade, Zilah Spósito e Tirol.
Com turmas formadas majoritariamente por mulheres, as oficinas integram de forma inédita a história e o simbolismo do tambor, a confecção e ornamentação física dos instrumentos, a iniciação técnica ao tambor e ao pandeiro, além da prática de ritmos populares. Mais do que uma formação musical, o projeto consolida um importante legado material e imaterial para as comunidades envolvidas. Ao todo, serão doados 30 instrumentos construídos durante as aulas – cada território receberá cinco tambores (caixas de folia) e os cinco pandeiros de uso coletivo -, além da formação de pelo menos três multiplicadores locais (um por bairro) para garantir a continuidade das práticas culturais.
"Construir um tambor é também transmitir uma história. Ao aprender fazendo e tocar em conjunto, os participantes entram em contato com saberes que atravessam gerações e encontram novas formas de continuidade no presente", destaca Guê Oliveira. A idealizadora ressalta que o projeto reconhece a cultura negra e afro-brasileira como fundamento da formação nacional e valoriza as comunidades periféricas como legítimas produtoras de conhecimento.
Celebrações e Encontros Comunitários
Para marcar o encerramento do projeto, cada território receberá uma programação cultural aberta ao público. As atividades incluem ensaio aberto com apresentação musical coletiva dos alunos, exposição dos instrumentos confeccionados, mostra de registros fotográficos do processo formativo e uma roda de conversa sobre a experiência.
A circulação dos encerramentos começa em novembro,no sábado (7), no Jardim Felicidade, no espaço Rabiola. Na quinta-feira (12), é a vez do Zilah Spósito, no Centro Comunitário Nossa Senhora Aparecida. A jornada festiva se encerra no dia 15 de novembro (domingo), no Tirol, no Campo Alvi Verde, em uma ação conjunta com a Irmandade do Rosário Tirol.
O projeto “A Voz do Tambor” é realizado com recursos da Lei Municipal de Incentivo à Cultura de Belo Horizonte. A iniciativa tem idealização e coordenação pedagógica de Guê Oliveira, produção da Fina Fazedoria, gestão da Urutu Produções, comunicação da Fruto e assessoria de imprensa da Infinita Comunicação.
Quem é Guê Oliveira: a luthier e historiadora que compartilha saberes e memórias como tecnologias ancestrais
A idealizadora do projeto A Voz do Tambor carrega a assinatura e a vivência de Guê Oliveira, nome artístico de Gladys Cristina de Oliveira. Mulher negra, filha da classe trabalhadora e com raízes familiares cravadas no Vale do Jequitinhonha e em Lavras. Guê é musicista (cantora e percussionista), educadora, produtora e pesquisadora da cultura popular. Sua atuação transita com fluidez entre a precisão da formação acadêmica e a sensibilidade da educação popular.
Licenciada em História pela Universidade Federal da Paraíba (UFPB), especialista em Trabalho, Educação e Movimentos Sociais pela Fiocruz e mestra em Geografia pela Unesp, Guê costura o conhecimento científico à prática artística e ao trabalho com organizações populares. No projeto, ela assume a proponente geral, a coordenação pedagógica e a condução direta das oficinas.
O primeiro tambor construído, a "Marianinha", e a descoberta da lutheria
O divisor de águas na trajetória de Guê aconteceu em 1996, durante o FESTIVALE onde se deparou com o Coral de Lavadeiras, o violeiro Pereira da Viola e a caixa de folia tocada por Carlinhos Ferreira. Aquele momento despertou um encontro profundo com sua própria ancestralidade. Sem recursos financeiros para comprar um instrumento na época, ela construiu o seu primeiro tambor ao lado de Carlinhos.
Batizado carinhosamente de "Marianinha", o instrumento nasceu do improviso e da engenhosidade: uma lata de tinta, madeira de peneira, couro, cordas e retalhos de tecido. Ao aprender a dar vida aos materiais descartados, Guê descobriu-se artesã e luthier. Desde então, defende a confecção de tambores como uma tecnologia social ancestral, acessível e emancipatória.
Das ruas às comunidades: a referência do Congado e da organização popular
A bagagem metodológica de Guê foi moldada na prática. No final dos anos 90, atuou como monitora de Carlinhos Ferreira em oficinas voltadas para catadores de papel na ASMARE e para a população de rua de Belo Horizonte — experiência que inspira diretamente a formação de multiplicadores no projeto atual. Seu currículo acumula ainda vivências artísticas com crianças e educadores por vários estados brasileiros e oficinas em assentamentos rurais e cidades como Belo Horizonte e Região Metropolitana, Governador Valadares, Jampruca, Montes Claros, Novo Cruzeiro, Teófilo Otoni e Vale do Jequitinhonha. Em outros estados, ela atuou em Ribeirão Preto (SP), Campo dos Goitacazes (RJ), Rio de Janeiro (RJ), Caruaru (PE), São Luis (MA) e Maranhão (PA).
Tendo o Congado como sua principal “escola” rítmica e espiritual, e o movimento cultural de Belo Horizonte, do Vale do Jequitinhonha e dos movimentos sociais como seu espaço de formação política, Guê Oliveira enxerga a construção do tambor como um ato de resistência e transmissão de saberes. Ao focar a jornada atual em mulheres, adolescentes e jovens, a artista busca descentralizar o acesso à percussão e garantir que o pulsar do saber popular ganhe novas mãos. “Eu sou fruto do movimento e, ao mesmo tempo, agora estou devolvendo esse conhecimento que adquiri. Eu sou a colheita também, mas também sou a plantação, porque estou ajudando a plantar de novo”, resume.
ENCERRAMENTO DO PROJETO A VOZ DO TAMBOR
Entrada gratuita e aberta ao público. Programação com ensaio aberto, apresentação musical,
exposição de instrumentos/fotos e roda de conversa.
07/11 (Sábado) – Jardim Felicidade
Local: Rabiola (Rua Antônio Adão Batista, 73 – Jardim Felicidade, Belo Horizonte - MG)
Horário: das 14 às 18 horas
12/11 (Quinta-feira) – Zilah Spósito
Local: CRAS Zilah Spósito (Rua Coquilhos, 75, Zilah Spósito, Belo Horizonte - MG)
Horário: das 14 às 18 horas
15/11 (Domingo) – Tirol
Local: Campo Alvi Verde (Conjunto Túnel de Ibirité / Bairro Tirol, Belo Horizonte - MG)
Horário: das 9 às 17 horas

Nenhum comentário:
Postar um comentário