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quarta-feira, 12 de outubro de 2022

Régis Bonvicino lança " a nova utopia"

Foto: Esther Grinspum
Considerado um dos principais poetas da atualidade, no Brasil e no exterior, o autor viveu um grande drama familiar que atrasou a conclusão de sua obra em livro e streaming.

Versão “beta” da a nova utopia via streaming foi lançada com nome Deus devolve o revólver, em 2019, em parceria com Rodrigo Dário, sendo sucesso nas plataformas digitais ao reunir alguns poemas que, ainda, seriam encontrados na atual versão.

Previsto para ser lançado em 2018, o livro de poemas a nova utopia, editora Quatro Cantos, só pode ser concluído neste ano pelo autor Régis Bonvicino .

Iniciado em 2014, a obra teve conclusão somente este ano por um motivo: a morte precoce de sua filha, Bruna, forçou o autor a ficar recluso por 1 ano. De acordo com o próprio poeta, esse tempo permitiu que mais poemas fossem feitos. “Posso dizer que além de ser o maior projeto escrito, também é o mais complexo”, explica.

A nova utopia reúne 67 novos poemas e o livro se alterna entre o gênero poema ele mesmo, prosa poética curta e prosa poética mais longa. É marcado por uma variedade linguística, decorrente de espelhamentos, ou seja, de uma investigação do mundo contemporâneo de miséria e de mendigos, de decadência e desesperança, aqui e no exterior, Brasil e Europa em cotejos, contrastes e confrontos.

O cenário é a cidade: principalmente São Paulo, mas também Rio de Janeiro, São Luís do Maranhão, Paris, Nice, Roma, Sevilha, não para fins de “diário de viagens” mas para comparações e paralelos críticos.

“O livro consiste numa tentativa de interpretação dessas realidades e não em um “discurso” sobre ela, ou como os poemas são minuciosamente construídos. Escrita seca, mas sensível, articulando arte e cultura no cotidiano duro das pessoas na contramão dos sentimentalismos etéreos”, explica Bonvicino.

Não é atoa que o livro está em branco e preto, ao trabalhar com personagens em nível de sobrevivência: fascismos, guerras, imigrantes, indiferença, fome, atentados etc. Nesse aspecto, pode-se dizer que, de algum modo, se relaciona com o neorrealismo italiano sobretudo o de Pier Paolo Pasolini e Roberto Rosselini.

A nova utopia, ao penetrar na realidade das ruas e de seus conflitos, representa tentativa de buscar uma explicação para o caos e referida barbárie contemporânea. É um livro reflexivo e, por isso, não há nele poemas edificantes ou lugares de repouso. Seu tema mais central é o espaço público urbano degradado; os mendigos afloram como atores principais que não atuam; nos bastidores, os novos utopistas propõem, ambiguamente, suas ideias.

Primeiras impressões

O crítico cubano Ricardo Alberto Pérez observa que a poesia de Régis Bonvicino representa uma combinação feliz e pouco comum ao fundir a obsessão pela linguagem com a vocação intensa de estar nas ruas.

O crítico uruguaio, residente na Cidade do México, Eduardo Milán, escreve na orelha: “A lucidez poética de Régis Bonvicino se joga inteira quando evita toda nostalgia de outros tempos -- tanto poéticos como históricos -- para confrontar este presente histórico com o tempo da poesia”.

O poeta e crítico Luis Dolhnikoff assim se expressa: “Porque essa é uma poesia de uma beleza áspera e de uma imagética bruta, além de minuciosa. Disseca a seco a feiura caleidoscópica da cidade-mundo e do mundo urbanizado. E aproxima, afinal, a poesia brasileira contemporânea desse mundo até lhe roçar as chagas”.

O crítico Alcir Pécora afirma no prefácio do libreto Deus devolve o revólver (2019/2020): “A qualidade dessa poesia, por si mesma, é extraordinária -- eis o que precisa ser dito antes de mais nada”.

Versão streaming

Em 2019, Régis Bonvicino fez uma parceria com o artista Rodrigo Dário, a obra em streaming Deus devolve o revólver. Sucesso de downloads, foram disponibilizados 16 poemas do livro inacabado a nova utopia, que ainda estava inacabado.

Devido ao sucesso da primeira versão de streaming, Bonvicino e Dário reeditam a parceria, trazendo a última fase do projeto com novos poemas narrados. As vozes são da soprano Caroline De Comi e de Régis Bonvicino. O alaúde foi tocado pelo refugiado sírio em São Paulo Rajana Olba.

Esse novo streaming combina poemas apenas lidos pelo poeta com outros nos quais se dá a intervenção de Dário. Alcir Pécora já afirmara: “Algo novo se gestou entre eles: um álbum de poesia eletrônica heavy”, o que se pode igualmente dizer para essa segunda etapa. Trata-se de trabalho de palavra falada com intervenções sonoras incomuns, intervenções que compreendem os poemas e com eles criam um terceiro objeto artístico no qual os poemas deixam de ser apenas poemas. E o som deixa de ser apenas som.

Em um dos poemas - “Lápide” - a leitura é de Maria, provavelmente moradora de rua, que estava na plateia do evento Deus devolve o revólver no Largo do Poço da Baixa de Coimbra. Maria se entusiasmou e foi ao “palco”.

Ficha Técnica

- a nova utopia - Streaming

Autor:Régis Bonvicino/Rodrigo Dário

Produção Artística/Executiva: Rodrigo Dário

Masterização: Alexandre Marino

Narração Régis Bonvicino/Caroline De Comi/Maria

Sobre Régis Bonvicino 

Nascido em São Paulo, em 1955, é um poeta, tradutor, crítico literário e editor brasileiro. É reconhecido internacionalmente como um inovador incansável na poesia. E no Brasil considerado como um dos mais consistentes da atualidade.

Bonvicino faz parte de uma geração de poetas brasileiros que surgiu com o declínio da Poesia Concreta e sob os ecos do Tropicalismo na década de 1970. Desde então, já publicou mais de 30 obras, como livros de poesia, plaquete, críticas, antologias e traduções.

Seus poemas foram traduzidos para mais de 20 idiomas, como o inglês, o hindi, o francês, o espanhol, o chinês, o catalão, o holandês, o dinamarquês, entre outros.

Entre suas participações em leituras de poesia, no âmbito internacional, destacam-se as atuações em Coimbra, Santiago de Compostela, Buenos Aires, Paris, Marselha, Chicago, San Francisco, Los Angeles, Hong Kong, Filadélfia, New York, Santiago do Chile, cidade do México, entre algumas outras cidades.

Com passagens por grandes redações, como Folha de S.Paulo, O Estado de S.Paulo, e Revista Veja, também é fundador da Sibilia - Revista de poesia e crítica literária- que existe há mais de 20 anos e hoje é totalmente eletrônica.

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