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quarta-feira, 6 de novembro de 2019

Espetáculo circense se inspira na história da Vila Acaba Mundo

Público pode conferir o talento dos jovens no palco
Foto: Divulgação
Malabarismo, perna de pau, tecido acrobático, números de portagem e acrobacias de solo são algumas das atividades oferecidas pelo programa Circo no Querubins, na Vila Acaba Mundo. Com a proposta de formar, capacitar e integrar jovens em situação de vulnerabilidade social, o projeto completa seu quinto ano reafirmando o papel da cultura e da arte na formação cidadã. No dia 24 de novembro, o público vai poder conferir uma mostra do que tem sido trabalhado com as crianças e adolescentes nas oficinas. Em evento gratuito e aberto a todos, os alunos e alunas unem conhecimentos adquiridos nas aulas e apresentam um espetáculo inspirado na cultura da comunidade em que vivem.

A apresentação foi desenvolvida de forma interdisciplinar: o cenário foi construído nas oficinas de arte, as oficinas de dança contribuíram com as coreografias, a sonoplastia será feita pelos alunos da marimba e do coral. “No lugar dos alunos de cada oficina apresentarem separadamente, nós resolvemos criar um espetáculo. Construímos juntos uma história, aproveitando elementos da região e das crianças e adolescentes envolvidos, para eles criarem essa identificação com o local e não apenas reproduzirem coisas de mundos distantes”, conta João Carlos Marques, professor de circo e de história, artista circense, arte-educador e instrutor das oficinas do Circo no Querubins.

Em 2019, a diretoria do Querubins escolheu o tema ‘culturas’ para guiar as oficinas do projeto. E foi a partir daí que nasceu o espetáculo Do Outro Lado do Mundo. “Eu comecei a perceber que as crianças não tinham muita noção do que é cultura, então comecei a instigá-los a descobrir a própria cultura. Para isso, temos que estudar a história da cidade, o ambiente onde a gente vive, ouvir as pequenas histórias. Começamos a questionar: o que é cultura? De onde veio a minha cultura? Qual é a cultura que eu quero levar adiante?”, explica Raquel Coutinho, coordenadora artística do Projeto Querubins.

João, que atuou como assistente de direção do espetáculo, ofereceu um aulão sobre cultura para guiar o processo de criação. “Tentamos extrair o que é próprio da Vila Acaba Mundo e desenvolvemos um roteiro. Fizemos um trabalho construtivista e eles colaboraram com várias sugestões. Tudo isso usando uma ideia da Raquel de desconstruir o nome ‘Vila Acaba Mundo’, ao passar a noção de que todo fim é um recomeço, mostrando que ali é um espaço em constante transformação”, afirma João.

O roteiro passa pelos primeiros habitantes da região, os animais, pela chegada do homem, que transforma o local, e das famílias, com  as primeiras manifestações de costumes e hábitos. “A gente descobriu, por exemplo, que as pedras que fizeram a Praça da Liberdade, a Contorno e a Getúlio Vargas saíram dali, a partir da ação da mineradora. É uma história de transformação, de luta e de resistência.”, reflete Raquel.

A coordenadora conta que tudo está sendo contado poeticamente. Há uma história sobre um desmoronamento que provocou uma reformulação da vila; outra sobre uma criança que morreu afogada no poço da mineradora. O espetáculo vai homenagear esse menino com um número de circo, coreografado pelo instrutor Edson Gaguiim, no tecido acrobático.

“Apesar de terem histórias duras, tudo é contado com leveza e poesia. A cultura pode ressignificar as dores, as histórias e perpetuar, fazer com que a gente tenha memória. A gente quer que as crianças se enxerguem como agentes culturais e que todo o processo de aprendizado nas artes faça sentido pra elas na vida real. Não que as oficinas não sejam ‘vida real’, mas o objetivo é tornar a arte mais uma possibilidade. A intenção é que a gente estimule pessoas que, se entendendo e se valorizando como um ser cultural, possam transformar o mundo pela própria ação”, afirma Raquel. 

Cortejos

Para convidar as pessoas a assistirem ao espetáculo, os alunos do Querubins vão realizar dois cortejos no dia 17 de novembro. O primeiro, na parte da manhã, sairá na Praça JK, no Sion. À tarde, as crianças a adolescentes vão ocupar a feira da Vila Acaba Mundo com muita música e performances circenses.  

Oficinas

As oficinas de circo são semanais e atendem gratuitamente cerca de 120 crianças e adolescentes de uma das comunidades mais carentes da capital mineira. Por ser uma atividade física e lúdica abrangente, o circo desperta o interesse dos pequenos pela arte e faz com que desenvolvam novos olhares e formas de se relacionar com o mundo. Eles desenvolvem a coordenação motora, o trabalho em equipe e a consciência corporal nas oficinas. Além dos ganhos pessoais, as atividades têm o potencial de fortalecer e transformar positivamente a comunidade que as recebe. 

“Eu acho que esse tipo de atividade é muito importante em qualquer espaço. No projeto, tem alunos da Vila Acaba Mundo, do Morro do Papagaio, do Aglomerado da Serra. Quando se fornece para essas pessoas materialidade, instrução de qualidade e condições favoráveis, elas não deixam nada a desejar com o retorno do que se apropriam. Então um lugar que seria de fuga e acolhimento, acaba se tornando um lugar de formação. Tem vários casos de ex-alunos que iniciaram carreira cultural dentro do Querubins, tem músicos muito bons, pessoas que dão aula de circo, profissionais do teatro, da dança”, afirma João.

‘Circo no Querubins’ nasceu da parceria entre o Studio A, escola referência em modalidades aéreas e circo em Minas Gerais, e a Associação Querubins, Organização Não Governamental que, desde 1993, visa a educação e a formação humana de jovens da Vila Acaba Mundo. O projeto é realizado com recursos da Lei Municipal de Incentivo à Cultura de Belo Horizonte com patrocínio do Banco Mercantil.

Associação Querubins

Criada em 1993, a Associação Querubins atende a mais de 200 jovens da Vila Acaba Mundo com a intenção de aprimorar o desenvolvimento humano e permitir aos indivíduos a prosperidade na sociedade. Diariamente, a associação oferece 14 horas de atividades artísticas, pedagógicas e de capacitação profissional. Além das oficinas e cursos, o grupo mantém um Banco de Oportunidades com intuito de encaminhar jovens e adultos para cursos de qualificação profissional e também para vagas de empregos.

Studio A

O Studio A foi criado em 2014 pela professora Luiza Senra e, em pouco tempo, se tornou referência no ensino de circo e de modalidade aéreas em Belo Horizonte. Além de aulas de dança e acrobacias para adultos, periodicamente oferece atividades para crianças. Em 2015, a escola firmou parceria com a Associação Querubins e desde então oferece aos moradores da Vila Acaba Mundo aulas voltadas à prática e conhecimento de habilidades circenses. 

Espetáculo circense do projeto Circo no Querubins

Data: 24 de novembro

Horário: 15h

Local: Associação Querubins - Rua Correias, 700, Sion, Belo Horizonte/MG

Entrada franca

Cortejos

Data: 17 de novembro

10h - Praça JK

14h - Vila Acaba Mundo

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